O efeito dominó que está derrubando a distribuição de charutos cubanos na Europa
Três distribuidores de Habanos, em três países europeus, amanheceram em setembro de 2026 em situações jurídicas diferentes. Na Alemanha, a 5th Avenue parou de entregar e pediu insolvência. Na Suécia, a Elite Trading Scandinavia perdeu a licença de tabaco e foi para a liquidação. Na Espanha, a Tabacalera continua abastecendo os estancos, só que precisa de autorização do Tesouro para pagar a própria folha.
Mesma origem. Três desfechos.
Manchete que generaliza merece desconfiança, e essa generaliza. Não é a Habanos S.A. quebrando nem o mundo ficando sem charuto cubano. É uma sanção contra uma pessoa física que subiu pela cadeia societária desses distribuidores, e cada legislação nacional respondeu do seu jeito. Três peças caíram de maneiras diferentes. Uma não caiu.
Uma peça derruba todas: a cadeia societária que ninguém vê na anilha
De um indiciamento em Nova York até a prateleira de uma tabacaria em Berlim
Em 14 de outubro de 2025, o Distrito Leste de Nova York indiciou o empresário Chen Zhi por fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. Indiciamento não é sentença, e a distinção vale para cada linha do que vem a seguir.
O que liga esse processo à prateleira de uma tabacaria em Berlim é uma escada de oito degraus. Chen Zhi detém 100% da Simply Advanced Limited, das Ilhas Virgens Britânicas, que detém 57,1% do Allied Cigar Fund LP. De lá o controle desce por duas holdings, a Supreme Treasure International e a Asia Uni Corporation, até a Allied Cigar Corporation S.L.U., dona da Tabacalera, que é dona da ITI Cigars, titular de metade da Habanos S.A. desde 2020. A outra metade é da estatal cubana Cubatabaco. E a Habanos distribui tudo o que sai das fábricas cubanas (quem está chegando agora encontra o mapa no guia completo dos charutos cubanos). Exposição indireta de Chen Zhi à Habanos: 28,55%, ou seja, 57,1% de 50%.
Nada disso aparece na anilha do seu Montecristo, e até 2025 nada disso importava ao lojista. A Habanos já vinha de um ano atípico, com o cancelamento do Festival del Habano pesando no calendário. Aquilo era problema de agenda. Este é de caixa.
O limiar dos 50% explica por que cada país reagiu de um jeito
Regime de sanções não olha simpatia, olha percentual. A régua da União Europeia é propriedade e controle: com 50% ou mais, a empresa é tratada como se fosse o próprio sancionado, mesmo sem constar da lista. Levantamento da publicação sueca Cigarrvärlden, de 20 de agosto de 2026, posicionou os distribuidores europeus nessa régua:
| País | Distribuidor | Participação indireta do grupo Allied/Tabacalera |
|---|---|---|
| Espanha | Tabacalera, S.L.U. | 100% |
| Suécia | Elite Trading Scandinavia | 50% |
| França | Corprova | 50% |
| Itália | Diadema | 30% |
| Alemanha | 5th Avenue | 28% |
| Suíça | Intertabak | 25% |
| Reino Unido | Hunters & Frankau | 24,995% |
Os percentuais medem a participação indireta do grupo Allied/Tabacalera em cada distribuidor, no pior cenário: a Cigarrvärlden trata Chen Zhi como controlador do grupo e não calcula a fatia pessoal dele. Para a 5th Avenue, a conta usa a Altabana a 56%; o registro comercial alemão, citado mais adiante, aponta 80%.
Repare nos 24,995% do Reino Unido. Ninguém chega a esse número por acaso.
O mecanismo em três tempos: sanção, banco, caixa
A sanção lista a pessoa: em 30 de julho de 2026, a União Europeia incluiu Chen Zhi e o Prince Group em seu regime global de direitos humanos, com congelamento de ativos e proibição de disponibilizar fundos. O banco europeu lê a lista, roda o teste de propriedade e controle e bloqueia o que estiver por perto. Banco não julga: fecha a torneira e pergunta depois. Sem meio de pagamento, a empresa cai no colo da lei local, e é aí que os três países se separam.
A sanção nunca proibiu vender charuto. Ela tornou impossível movimentar dinheiro.
Primeira peça, Alemanha: a distribuidora que simplesmente parou
O que é, e o que não é, o processo alemão
Em 4 de setembro de 2026 a 5th Avenue Products Trading GmbH mandou carta aos clientes suspendendo as entregas. No dia 8 pediu insolvência. No dia 9, às 17h, o Amtsgericht Waldshut-Tiengen despachou o pedido sob o número 4 IN 194/26 e nomeou administrador preliminar o advogado Dr. André Berbuer, de Freiburg. O comunicado público veio no dia 14.
Quase toda tradução erra neste ponto. Não é falência nem recuperação judicial: é Insolvenzeröffnungsverfahren com administração preliminar, a fase em que o tribunal protege o patrimônio antes de decidir se abre o processo definitivo, que até agora não foi aberto. A direção segue no comando, com anuência obrigatória do administrador.
O pedido foi obrigação legal: o §15a da lei alemã de insolvência manda a diretoria protocolar em até três semanas a partir da iliquidez, sob pena criminal. Não foi manobra, foi prazo correndo.
No comunicado, a empresa atribui o passo a restrições ligadas a sanções que atingem um de seus sócios e diz que as causas “não estão no negócio operacional”. Nunca nomeia Chen Zhi: quem faz a ligação nominal é a imprensa.
O tamanho do buraco: quinto maior mercado do mundo
A Alemanha é o quinto maior mercado mundial de Habanos, e a 5th Avenue não é casa pequena. Fundada em 1989 como joint venture entre Heinrich Villiger e a Habanos S.A., hoje Altabana com 80% e Villiger com 20%, faturou cerca de 64 milhões de euros em 2024, emprega 49 pessoas e atende por volta de 200 lojistas: 70 Habanos Specialist e 20 La Casa del Habano na Alemanha, mais 3 na Polônia. Áustria e Polônia dependem da mesma porta de entrada. Quando ela fecha, fecha para todos.
Bodo Mehrlein, da associação alemã do setor, chamou a medida de desproporcional. Difícil refutar: quem paga a conta de uma sanção contra um acionista indireto de 28% é o lojista de Munique que encomendou caixa em julho e não recebeu em setembro.
A ironia do Por Larrañaga 35 Aniversario
Em 31 de agosto de 2026, a 5th Avenue lançou o Por Larrañaga 35 Aniversario, uma Edición Regional Alemania de cepo 49, tiragem de 2.000 caixas, algo em torno de 35 euros a unidade, comemorando com atraso os 35 anos da própria distribuidora. Oito dias depois veio o pedido de insolvência. Caixa comemorativa e protocolo judicial na mesma semana: não há ironia melhor no mercado neste ano.
Tiragem fechada vira objeto de disputa rápido, mecanismo que já destrinchamos nas edições regionais cubanas. Quem só quer conhecer a marca encontra o Por Larrañaga Petit Coronas por perto de R$ 100 a unidade, com a doçura discreta que é a assinatura da casa.
Segunda peça, Suécia: uma prefeitura derrubou o braço nórdico de oito países
Licença de tabaco na Suécia é municipal, e isso muda tudo
A Elite Trading Scandinavia AB, até 2025 chamada Habanos Nordic AB, distribuía Habanos com exclusividade, por quase duas décadas, para Suécia, Dinamarca (com Ilhas Feroe e Groenlândia), Noruega, Finlândia, Islândia, Estônia, Letônia e Lituânia.
Na Suécia, a licença de tabaco é municipal, no varejo e no atacado, sob a Lag om tobak och liknande produkter de 2018. Quem concede e quem revoga é a prefeitura: no caso, a administração ambiental de Göteborgs Stad. Uma decisão municipal tirou do jogo o distribuidor de oito países.
A cronologia que não pode ser invertida
O erro mais fácil aqui é achar que as sanções da União Europeia derrubaram a licença sueca. A ordem dos fatos é a oposta.
- 14/10/2025: Chen Zhi é indiciado nos Estados Unidos.
- 08/12/2025: a PwC renuncia à auditoria da empresa.
- 15/12/2025: Göteborgs Stad revoga a licença. Motivos declarados: não comunicou mudanças de conselho e de estrutura acionária como exige a lei do tabaco, não entregou documentos solicitados, e o indiciamento de Chen Zhi foi avaliado como fato “muito grave”.
- 15/06/2026: a primeira instância nega o recurso no mérito. A empresa não provou ter cortado vínculos com Chen Zhi, e a análise de idoneidade não pôde ser concluída.
- 01/07/2026: a assembleia decide pela liquidação voluntária.
- 30/07/2026: só agora chegam as sanções da União Europeia.
- 03/08/2026: a liquidação é registrada no Bolagsverket.
Mais de sete meses separam a revogação da sanção europeia. As sanções são agravante posterior, não causa.
O recurso que morreu sem julgamento
Em 11 de setembro de 2026, a segunda instância em Gotemburgo arquivou o processo. Não por ter julgado contra a empresa: o liquidante retirou o recurso, alegando que empresa em liquidação não precisa mais de licença. A revogação transitou em julgado ali, sem julgamento de mérito na instância superior. Segundo a Cigarrvärlden, que vem quebrando quase todas as notícias dessa crise, o estoque ainda em mãos não pode ser vendido desde então.
O sucessor que já estava montado
A Habanos não ficou sem plano. A The Premium Company Nordic AB foi criada por Stephan Praetorius, 21 anos como diretor da antiga Habanos Nordic, aprovada pela Habanos em 2024 e faturando desde janeiro de 2025. Plano B montado antes do desastre, na descrição da imprensa setorial. Com uma ressalva que não dá para omitir: a Cigarrvärlden aponta financiamento recebido da Elite Trading a partir de maio de 2024 e levanta risco de contaminação por sanções. Praetorius nega de forma categórica.
Terceira peça, Espanha: a operação que continua, mas pede autorização para pagar a folha
Tudo o que se sabe sobre o congelamento das contas espanholas vem de fonte única: a revista francesa L’Amateur de Cigare, que publicou por volta de 11 e 12 de setembro com base em comunicados internos. Cigars-Connect, 14ymedio e a imprensa cubana no exílio republicaram, mas nenhum veículo econômico espanhol confirmou. A Tabacalera não confirmou nem desmentiu, e a Interpath recusou comentar. Leia o que vem abaixo com essa régua na mão.
Congelamento por efeito automático, não por ordem de ninguém
Não houve juiz mandando congelar, não foi o OFAC, não foi autoridade sanitária. A Tabacalera, S.L.U. sequer consta da lista: é alcançada pelo teste de propriedade e controle, porque ocupa os 100% no topo da tabela. Desde a Decisão (PESC) 2026/1896 e o Regulamento de Execução (UE) 2026/1895, de 30 de julho, cada pagamento exige autorização prévia da Dirección General del Tesoro, autoridade espanhola em sanções financeiras.
Segundo a apuração da L’Amateur de Cigare, um comunicado interno do início de agosto classificou a situação como a “consequência mais grave das sanções”, a folha chegou a atrasar antes de ser liberada pelo Tesouro, a empresa perdeu a conta no ING España no fim de 2025 e ficou sem acesso ao Microsoft 365 no início de setembro, este último com causa não estabelecida.
Uma distribuidora de cerca de 118 funcionários pedindo autorização estatal para pagar salário. É esse o tamanho da fricção.
O pré-concurso que já terminou, e que nunca foi falência
A Tabacalera entrou em preconcurso de acreedores entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 e saiu dele em maio, depois de obter licenças provisórias do OFAC (até 2028) e do OFSI britânico (até 2031). Pré-concurso é comunicação de abertura de negociação com credores, mecanismo preventivo, e nunca virou concurso de acreedores.
Os nomes costumam ser trocados, então separo. No processo espanhol atuou a Teneo, perita independente aceita pela juíza Marta García Fernández, do Juzgado de lo Mercantil nº 8 de Madri, em 18 de fevereiro de 2026. A Interpath Advisory é outra coisa: liquidatária provisória nomeada pela corte das Ilhas Virgens Britânicas sobre cerca de 30 empresas offshore de Chen Zhi. Responde pelos direitos do acionista majoritário, mas não faz a gestão do dia a dia da Tabacalera. E a Tabacalera, S.L.U. de Madri não é a extinta Tabacalera, S.A. (monopólio estatal encerrado em 1999), nem a Altadis, nem a Tabacalera de García, nem a Tabacalera USA, nem a estatal cubana Tabacuba.
E ainda assim os estancos receberam
Os estancos consultados pela mesma revista francesa receberam remessas de Habanos normalmente em setembro de 2026, e nenhum fechamento de La Casa del Habano na Espanha foi localizado. A Espanha foi o segundo maior mercado mundial da Habanos em 2024, atrás apenas da China, dentro de um faturamento recorde de US$ 827 milhões. E continua entregando. Fricção de caixa, até aqui, não virou fricção de prateleira.
O calendário cubano também não parou. O Quai d’Orsay Concordia Edición Limitada 2026 tem lançamento mundial marcado para 24 de outubro, em Las Ventas, Madri, sob o tema “La Nuit d’Orsay”, organizado pela própria Tabacalera S.L.U. com o Club Pasión Habanos. Até 18 de setembro, nenhum anúncio de cancelamento e nenhuma reconfirmação oficial depois do congelamento. No ano dos 60 anos da Cohiba e da entrada do Cohiba Talismán na produção regular, a distribuidora do único lançamento mundial de Edición Limitada do ano pede licença para pagar fornecedor.
A peça que não caiu: por que a Suíça passou ilesa
Confundir Suíça com Suécia é o erro número um dessa história, então deixo explícito: a Intertabak AG não perdeu licença nenhuma. Segue distribuidora oficial e sediou o lançamento mundial do Trinidad Vigía Reserva Cosecha 2022 em 19 de setembro de 2026, no Fairmont Le Montreux Palace. Dois motivos: a Suíça não é União Europeia e não adotou as sanções contra Chen Zhi, e a Intertabak aparece com 25%, bem abaixo da régua dos 50%.
O problema suíço existe, mas é outro e mais antigo: em fevereiro de 2024 a Habanos comunicou à Intertabak um corte de cerca de 40% na cota de fornecimento. Cota, não licença.
O que isso muda para quem compra charuto cubano no Brasil
Oferta, alocação e preço
Nenhum dos três distribuidores atende o Brasil: os territórios são Alemanha, Áustria e Polônia; os oito países nórdicos e bálticos; e a Espanha, exceto Canárias. Ninguém aqui vai encontrar prateleira vazia por causa de um despacho em Waldshut-Tiengen.
Só que o mercado cubano é um só, e já vinha apertado, com produção em queda e alocação restrita. Charuto travado num processo de insolvência não deixa de existir: é realocado, renegociado, redistribuído, e isso pressiona preço e disponibilidade de vitolas específicas. Pressão, não previsão. Quem prometer percentual de alta está inventando.
Edições Regionais e Limitadas ficam mais difíceis de achar
Aquelas 2.000 caixas alemãs presas num processo de insolvência são estoque fora do mercado: canal travado, demanda intacta. É assim que se fabrica raridade sem querer, e por isso o mercado de charutos cubanos raros e de coleção esquenta sempre que a logística cubana engasga. Quem prefere ficar fora dessa disputa tem saída: boa parte do saber cubano trabalha hoje fora da ilha, assunto da nossa conversa sobre identidade cubana fora de Cuba.
O precedente que sugere que isso volta
Hunters & Frankau, no Reino Unido, passou pelo mesmo bloqueio bancário depois das sanções de outubro de 2025 e voltou a operar em maio de 2026, com licença especial. A Tabacalera USA, que não é sancionada, era cliente das fábricas do grupo: suspendeu as compras e desviou a produção para outros fabricantes, e em maio os embarques das fábricas voltaram. A Tabacalera espanhola entrou e saiu do pré-concurso em poucos meses, e a Cigar Aficionado avalia a liquidação da 5th Avenue como improvável. O caminho conhecido é licença especial, e um equivalente europeu resolveria o gargalo bancário de uma vez.
Ainda assim, nenhum substituto para Alemanha, Áustria e Polônia havia sido anunciado até 18 de setembro de 2026. E a lista oficial de distribuidores no site da Habanos ainda trazia, nessa data, as três empresas atingidas.
O que observar nos próximos meses
- Alemanha: se o tribunal abre ou não o processo definitivo de insolvência. Muda o instituto jurídico e tudo o que se diz em cima dele.
- China: Chen Zhi foi entregue pelo Camboja à China em janeiro de 2026. O desfecho de lá se propaga para cá.
Some a isso o cenário regulatório, que já apertava sozinho, como no endurecimento da regulação do tabaco no Reino Unido. Sanção financeira e regulação sanitária são pressões distintas, e chegaram na mesma década.
O que fica não é o susto. É a constatação de que a distribuição de um produto artesanal, lento e agrícola está hoje amarrada a departamentos de compliance bancário que nunca acenderam um habano na vida. Quatro países, uma causa, quatro respostas.
Perguntas frequentes
A Habanos S.A. faliu? Não, e nenhuma das empresas citadas aqui é a Habanos S.A. A alemã 5th Avenue está em processo preliminar de insolvência, a sueca Elite Trading em liquidação e a espanhola Tabacalera opera sob autorização prévia do Tesouro.
Vai faltar charuto cubano no Brasil, ou subir de preço? Não há ruptura confirmada: os três distribuidores atingidos cobrem Alemanha, Áustria e Polônia, os países nórdicos e bálticos e a Espanha, e o Brasil não está no território de nenhum deles. Sobre preço, ninguém tem número confiável. Estoque travado em processo judicial reduz oferta, e oferta reduzida em mercado de alocação apertada pressiona preço e disponibilidade de vitolas específicas.
A Suíça perdeu a licença? Não. Quem perdeu foi a distribuidora sueca, em Gotemburgo. A Intertabak AG segue normal: a Suíça não é União Europeia e a exposição é de 25%. O problema suíço é de 2024, e é de cota, não de licença.
Quem é Chen Zhi e o que ele tem a ver com a Cohiba? É o empresário indiciado nos Estados Unidos em outubro de 2025 e sancionado pela União Europeia em julho de 2026, com participação indireta de 28,55% na Habanos S.A. Indiciado, sem sentença. A cadeia societária completa merece artigo próprio, e vai ganhar um aqui.



